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Em resumo, pode-se dizer que esta é a trilha sonora do apocalipse. Ou ainda, o retrato do início do declínio de uma banda que naturalmente estava fadada à auto-destruição. Ou, se preferirem, a moldura que exibe a mente tortuosa, insandecida e genial de Iggy Pop no limiar da navalha da demência que o jogaria futuramente num manicômio. Raw Power é direto, virulento, perigoso como poucos discos na história da música pop ousaram ser. Cada riff de James Williamson, cada linha do baixo de Ron Asheton, cada batida de Scott Asheton soam como uma briga de gangues, um ataque de cavalaria, um batalhão de choque. E no olho do furacão está Iggy, como um lunático com ares de grandeza que age de forma errática, mas meticulosamente errática.

Por uma obra do destino este disco chegou a sair: a banda estava prestes a se esfacelar (o que efetivamente ocorreu pouco depois de lançado); o baixista original, Dave Alexander, saira da banda juntamente com Ron Asheton, guitarrista original; e Iggy estava se afundando mais nas drogas e, por consequência, na auto-destruição física e mental. Com a ajuda de David Bowie, a banda se reúne, mas com mudanças cruciais na sua formação: Ron Asheton é “rebaixado” a baixista e recrutou James Williamson para assumir seu posto. Estes ingredientes são a base para o coquetel molotov disparado contra nosso ouvidos ao longo de pouco mais de meia hora de sexo, drogas, violência e rock´n´roll.

Logo no ritmo galopante inicial de “Search and Destroy”, já é notável a tensão que se criou entre os integrantes: ao passo que os riffs de Williamson cortavam certeiros e afiados, Asheton tocava seu baixo quase como uma guitarra tentando impedir o avanço de seu rival. Iggy berra, sussurra, geme em meio aos feedbacks: “I’m a street walking cheetah with a heart full of napalm/ I’m a runaway son of the nuclear A-bomb…” enquanto Scott se encarrega de desferir, como um primata insandecido, um ritmo martelado, repetitivo e simples de bumbo, caixa e prato. Segue-se tortuosamente por “Gimme Danger”, a balada do disco. Isto não significa que há alívio no som que se ouve: o violão seco agride tanto quanto a guitarra, e a voz de Iggy entra cheia de lascívia, num dos versos mais ambíguos que se tem notícia: “Gimme danger little stranger/And I feel with you at ease/Gimme danger little stranger/And I feel your disease”. E quando a música atinge seu ápice, se transfigura num pesadelo hedonista, prazer e morte lado a lado. A tônica do disco se mantém com petardos agressivos como o proto-punk sarcástico de “Your Pretty Face Is Going To Hell”, o blues drogado de “I need Somebody”, passando pelo punkabilly “I-saw-her-standing-there-tocada-no-inferno” de “Shake Appeal” até culminar na afetada “Death Trip”, um tratado da psicodelia setentista, onde o vício, a paranóia e o desespero sobrepujam os escassos momentos de prazer.

Um assunto controverso que sempre é colocado em pauta quando se fala sobre Raw Power diz respeito à sua mixagem e produção. A vontade de Iggy, na época, era ficar a cargo destes aspectos técnicos. Os executivos da empresa de Bowie, MainMan, colocaram a condição que Bowie cuidasse disto para que o disco fosse comercializado. Iggy refutou de início, mas cedeu a mixagem e cuidou da produção, exceto por Search and Destroy, em que cuidou de tudo. A grande questão é que houve muitas críticas, inclusive de Iggy, sobre o som fraco e inofensivo da versão que chegou ao grande público. Diversos bootlegs circularam ao longo dos anos sendo creditados como “a versão verdadeira” ou “a versão de Iggy Pop”. Apenas recentemente podemos ter a chance de ouvir, pelo menos em teoria, o que seria o som real de Raw Power. Sob a supervisão de Iggy, Raw Power foi remasterizado e remixado como deveria soar ao ouvido de todos: uma banda que exalava sangue e sexo, uma agressão em tom de espetáculo sintetizado no rock’n’roll mais cru, alto e grotescamente violento que se pode ter notícia.

Download: http://www.mediafire.com/?azil8z4jj1z

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