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Moby Grape

A obra do Acaso é imprevisível. Por pequenas obras do Acaso nomes ficam gravados na história justa e injustamente, super ou sub-estimados, enaltecidos ou soterrados. O Acaso colocou os Beatles na mira de Brian Epstein e, em sequência, George Martin. Ele se encarregou de marcar o encontro de Warhol, Lou Reed e John Cale. Ele deu sobrevida ao Mott The Hoople, quando os presenteou com a presença, produção e direção de Bowie para gravar All The Young Dudes. E sadicamente ele juntou os integrantes do Moby Grape para o disco homônimo e os amaldiçou dali em diante.

A banda se formou em Setembro de 1966 quase que ocasionalmente, adicionando integrante por integrante – iniciou com o guitarrista Jerry Miller juntamente com o Baterista Don Steveson, “esbarraram” em suas tours com o baixista Bob Mosley; Peter Lewis, outro guitarrista, entrou depois e, por fim, o ex-baterista da Jefferson Airplane, agora guitarrista, Skipe Spence dá suas caras. Forma-se a lendária, trágica e controversa Moby Grape, em sua formação clássica e breve. Foram descobertos num show em Sausalito por um produtor da Columbia Records, David Rubinson, que ficou impressionado com o entrosamento e habilidade dos cinco integrantes: “Eles são a melhor banda Americana que eu tinha visto. E eles eram todos grandes compositores!”

E Rubinson estava certo: além de grandes compositores, comprovado pelos créditos diversos nas músicas, eram grandes músicos e todos cantavam, características que tornam músicas como “Mr. Blues”“Lazy Me” tão preciosas, únicas e cativantes.

Numa velocidade surpreendente assinaram contrato com a Columbia Records e se apressaram para gravar o clássico disco de debut. O processo de gravação durou de Março a Maio de 1967, e teria de tudo para ser não apenas o grande clássico do cenário rock de San Francisco (que contava com pesos pesados como Janis Joplin and The Big Brother & The Holding Company, The Grateful Dead e Jefferson Airplane), mas o mais bem sucedido comercialmente. Seria, se não começasse aqui um dos seus desastres, neste caso comercialmente. A Columbia Records ficou tão estupefata com tamanha qualidade do disco, que sacrificou a vendagem e permanência nos charts lançando simultaneamente cinco singles do LP homônimo. Além disto, problemas internos começaram a minar o potencial criativo da banda e a criar dissidências para os discos subseqüentes, nunca conseguindo atingir a qualidade, interação e unidade deste disco. Os problemas com drogas também sacrificaram a unidade da banda, a níveis de integridade física (um dos episódios reporta que Spence atacou o quarto de hotel de Jerry Miller com um machado de incêndio após ter tomado LSD, na época da gravação do segundo disco da banda, Wow).

Podemos constatar que estes eventos realmente afetaram a todos da banda nos discos subseqüentes, mas seria leviano apontar estes problemas sem ressaltar o monstro de disco que fizeram em sua estréia, feito que certamente seria difícil de se superar mesmo se estivessem todos no topo de suas formas dali em diante. Ao ouvirmos o disco em seqüência, começando pela propulsiva “Hey Grandma”, passeando pelas guitarras entrelaçadas de “Omaha”, a psicodelia descabida e absurda de “Naked If I Want to” ou ainda as belas harmonias vocais de “8:05” ou “Sitting by The Windows” até finalizar no amálgama do disco, “Indifference”, percebemos que mais que ótima interação, habilidade, inteligência e ótimas composições, encontramos certa mágica que faz tudo se mesclar bem e se amplificar de forma surpreendente.

Se o Acaso e sua série de pequenos desastres acabaram por gradativamente tirar a banda das lentes do estrelato, do topo das paradas, do foco do público, a História foi mais gentil com a banda neste ínterim, dando hoje em dia o status de grande tesouro perdido dos férteis anos 60, uma relíquia da mistura mais bem sucedida de psicodelia, rock’n’roll, folk, country, R&B que se pode tirar do cenário musical de San Francisco no auge do Flower Power.

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Senha: claveseusouvidos

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